29 de setembro de 2016

Primeiros Centros Comerciais

Apesar de no princípio do século XX terem aparecido na imprensa alguns anúncios de lojas lisboetas com a designação de “Centro Comercial …”, os primeiros Centros Comerciais, em Portugal - inicialmente também designados por “Drugstores” - verdadeiramente ditos e como hoje os conhecemos, só apareceriam a partir de 1951.

Exemplo de anúncio a loja apelidada de “Centro Comercial”,  em 1909

O primeiro Centro Comercial do país, foi inaugurado no Monte Estoril, em 1951, no “Edifício Cruzeiro”, com o nome de “Centro Comercial do Cruzeiro” , e que chegou a ter uma loja filial da “Casa Africana” de Lisboa.

Postal promocional da época

«O projecto inicial, da autoria de Manuel António da Cruz e de João da Cruz, ditou o seu original nome, que foi consolidado pelo facto de se situar num local onde se cruzavam duas das antigas linhas de águas naturais do Monte Estoril.
Com a primeira pedra lançada em 1947, em pleno período de crise provocado pelo pós Segunda Guerra Mundial, a construção do edifício sofreu vários reveses, tendo sido Fausto de Figueiredo, o fundador do moderno Estoril, uma das personalidades que mais o atacou temendo que o mesmo pudesse vir a condicionar o sucesso do seu próprio projecto urbanístico.
No entanto, depois da inauguração em 1951, a Revista Portuguesa de Turismo consagra-lhe um enorme e muito elogioso artigo, no qual o considera um dos mais arrojados e interessantes projectos do Portugal moderno. No dizer da revista, foi “um dos melhores da Europa” de então…
Foi, de facto, o primeiro centro comercial Português e apesar do estado de abandono profundo em que ficou desde finais da década de setenta do Século XX, manteve sempre a sua importância na definição das memórias e da Identidade Cultural daquela localidade.» texto de João Henriques in: blog “
Portugal

Estado do edifício nesta foto de 2014

O segundo Centro Comercial ou Drugstore (outra designação para “Centro Comercial”) do país, e primeiro de Lisboa, foi inaugurado em 22 de Dezembro de 1967, de seu nome “Drugstore Sol a Sol”. Localizado na Avenida da Liberdade, nº 232 e com entrada também pela Rua Rodrigues Sampaio, nº 79 era propriedade da “Sociedade Portuguesa de Comércio Turístico, SARL”.

Entrada do “Drugstore Sol a Sol”  pela Avenida da Liberdade e interior do mesmo

Drugstore Sol a Sol (20-12-1967) 

“No dia 26 de Dezembro de 1967, o "Diário Popular" dedica-lhe uma página, terminando com uma sentença a raiar a premonição: O drugstore vai pegar? Bem, a pergunta não é bem esta, mas antes: porque é que o drugstore não há-de pegar - se em todo o Mundo já vingou?
O jornal descreve o drugstore como uma cave-que-parece-rua-com-muitas-lojinhas-lá-dentro, com recepção como um hotel e música ambiente como nos intervalos dos cinemas.
O Sol A Sol tinha 33 lojas, todas numeradas - aqui os estabelecimento apenas se distinguem pela numeração - que fechavam à 01H00 e essa era uma das curiosidades do jornal: «mas as pessoas compram coisas à meia-noite?»
Outra curiosidade referida pelo "Diário Popular" residia no facto de uma das lojas vender cartazes (posters): «de cartazes, sim, destes de pregar na parede.»
Também ficou conhecido como «o Drugstore da Avenida».”
texto in: blog “IÉ-IÉ

 

O terceiro Centro Comercial do país, e segundo de Lisboa, foi o “Drugstore Tutti-Mundi” inaugurado na Avenida de Roma, nº 48 em 19 de Dezembro de 1968. Também tinha uma 2º entrada peal Rua Conde de Sabugosa, nº 15. Este Drugstore, além de já ter restaurante e snack-bar, tinha garagem privativa.

  

Por último neste artigo, o quarto Centro Comercial do país e terceiro de Lisboa, seria o, ainda, sobrevivente o “Drugstore Apolo 70”, na Avenida Júlio Diniz, em Lisboa, inaugurado em 26 de Maio de 1971. Foi projectado pelo arquitecto Augusto Silva e decorado por Paulo Guilherme sendo propriedade da empresa “Copeve, SARL”. Ocupando uma área de 8.000 m2, w construído em 14 meses, foi considerado, na altura, o maior drugstore da Europa, compreendendo além das suas 41 lojas, sala de cinema, sala de bowling e snack-bar.

      

A sala de Cinema, designada de “Estúdio Apolo 70”, foi projectada pelo arquitecto Augusto Silva e decorada por Paulo Guilherme, oferecendo 300 lugares e equipada com aparelhagem de projecção “Phillips” de 35 m/m com écran normal e cinemascope. Com a sua programação dirigida por Lauro António, abriu as suas portas em 27 de Maio de 1971, sendo o seu filme de estreia “O Vale do Fugitivo”, um western realizado por Abraham Polonski.

         

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Cidadania Cascais

27 de setembro de 2016

Hotel Europa

O “Hotel de L’Europe” abriu as suas portas na Praça Luís de Camões, em Lisboa, em Abril de 1921 e propriedade da empresa “Hoteis Alexandre d’Almeida”. Juntamente com este Hotel esta empresa já detinha neste ano de 1921, o Hotel Metropole” (1914) no Rossio, o “Francfort Hotel” (1917) no Rossio e era arrendatária doPalace Hotel do Bussaco” (1917). Anos mais tarde mudaria a sua designação para “Hotel Europa”.

Hotel Europa

Hotel de L'Europe 1921.4    Hotel Europa.1 (Maio de 1921)

Hotel de L'Europe 1921.1 Hotel de L'Europe 1921.2

Anúncio em 24 de Dezembro de 1921

1921 Hotel Europa (24-12)

Janeiro de 1927

Hoteis Fernando de Almeida (Janeiro de 1927)

O primeiro “Hotel de l’Europe” - inicialmente designado de “Grande Hotel de l’Europe” - de Lisboa, propriedade de Ferdinand Piper tinha-se instalado, em 1896 no 1º andar do  “Palácio dos Barcelinhos” propriedade do Visconde de Ouguella, que se tornou conhecido depois de aí se terem instalado osGrandes Armazéns do Chiado”.

1896

1896 Grand Hotel de L'Europe

Hotel de L'Europe 1910.0

Anúncio de 1898 e Menú do jantar de 9 de Junho de 1900

1898 Hotel de L'Europa 1900 Hotel de L'Europe.1 

Lembro que o espaço ocupado “Grande Hotel de l’Europe”, desde 1883 até 1912, já tinha sido ocupado pelo “Grande Hotel Gibraltar”, inaugurado em 24 de Julho de 1874, e posteriormente pelo “Hotel Universal”, e propriedade de J.B. Podestá.

1874

1874 Grande Hotel Gibraltar (Julho) 

SAMSUNG               Hotel Universal.1

O “Hotel de l’Europe” , na Praça Luís de Camões, classificado de 2ª categoria ainda figurava com este nome em finais de 1930, após que mudaria de designação para, ”Hotel Europa”. Funcionou até 1980, ano em que encerrou definitivamente.

Enquadramento do “Hotel Europa” na Praça Luís de Camões e incêndio numa mansarda do hotel

Hotel Europa.4 CFT164 024504 002

Hotel de L'Europe 1921.3

1923 Conta 1923 Menú 

Postal.1Postal.2

Etiqueta

No seu lugar, abriria em 25 de Maio de 2005,  o “Bairro Alto Hotel”, propriedade da família Tavares da Silva e membro da cadeia “The Leading Hotels of the World”. O projecto deste primeiro «boutique hotel» português de 55 quartos e quatro suites, ficou a cargo dos arquitectos José Pedro Vieira e Diogo Rosa Lã, da “Bastidor Interiores e Design”.

Bairro Alto Hotel.1

Bairro Alto Hotel.2 Bairro Alto Hotel.3

Os azulejos do restaurante Flores do Bairro, do Café Bar e do Terraço têm marca lusa, assim como os atoalhados e a loiça da “Vista Alegre”. Cada quarto tem pintado um fresco de um pássaro diferente, desenhado pela artista Virgínia Mota. No lobby duas esculturas de Rui Chafes, enquanto que as fotografias do restaurante, da mezzanine e da sala de reuniões têm a assinatura de Rui Calçada Bastos. Nos quartos mansardas, as fotografias são da autoria de Nuno Cera. Os paladares portugueses do restaurante Flores, sob a direcção do chefe Vasco Lello.

Bairro Alto Hotel.4 Bairro Alto Hotel.5

Bairro Alto Hotel.8

Bairro Alto Hotel.6 Bairro Alto Hotel.7

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian, Hemeroteca Digital, Garfadas on line, Moussia, Bairro Alto Hotel

25 de setembro de 2016

Pastelaria “Mexicana”

A Confeitaria "Mexicana" abriu as suas portas em 28 de Dezembro de 1946, na Avenida Guerra Junqueiro, junto à Praça de Londres, em Lisboa. Tratava-se, então, de uma confeitaria, pastelaria e leitaria criada por uma sociedade formada pelos construtores civis de Tomar, José Vicente e seu genro Adelino Antunes, que tinham construído o prédio, e os primos do primeiro, Augusto Godinho e Manuel Penteado. A propriedade do prédio, entretanto, passaria para a “Caixa Sindical de Previdência dos Profissionais Barbeiros e Cabeleireiros”.

“Confeitaria Mexicana”, estabelecimento com o toldo à esquerda na foto

A cave da loja albergava a fábrica de pastelaria, que com a "Confeitaria Nacional" localizada na Praça da Figueira, era uma das duas únicas pastelarias de Lisboa que fabricava a sua oferta de pastelaria e afins. Especialidades como confeites de Páscoa em chocolate, bolo-rei, pingos de tocha, sombreros e os boleros eram receitas originais da "Mexicana".

Localização da “Mexicana” à esquerda da foto. No prédio no centro da foto o “Restaurante Portugal” inaugurado em 1949

Entre 1961 e 1962 a "Mexicana" é alvo de uma profunda reforma e ampliação, cujo projecto ficaria a cargo do arquitecto modernista Jorge Ferreira Chaves (1920-1981). Reforma que se traduziria na criação da esplanada, uma primeira sala com serviço de pastelaria e cafetaria, um novo salão de chá ao fundo do estabelecimento, um restaurante na cave (que só abriria nos anos 70) e um salão de festas e banquetes no primeiro andar.

Para além da coluna escultórica que Jorge Ferreira Chaves desenhou, introduziu elementos decorativos concebidos por João Câmara e Mirya Toivolla que executaram o mural do restaurante localizado na cave, e o vitral policromo na entrada das instalações sanitárias de autoria de Mário Costa. Querubim Lapa (1925-2016) criaria para este espaço dois grandes painéis cerâmicos em azulejos policromos: um que se situa na entrada do estabelecimento, em tons de azul e amarelo/dourado e outro, no salão de chá, intitulado "Sol Mexicano", obra impressionista que evoca os cactos dos desertos e o sol daquele país. Outros elementos decorativos a referir, como o passarinhário com periquitos e o mobiliário (mesas, cadeiras e móveis de apoio) desenhados por José Espinho e fabricado pela empresa "Móveis Olaio".

 

 

A “Mexicana” foi local de encontro de vários artistas ligados ao Surrealismo e ao Neorealismo bem como de arquitectos da geração que fixou o Movimento Moderno em Portugal, entre os quais o próprio Jorge Ferreira Chaves cujo atelier se situava nas imediações. Pelo requinte e qualidade da sua arquitectura, e após a obra de 1961/1962, foi o primeiro estabelecimento deste tipo a obter o estatuto de "Utilidade Turística", atribuído pelo “SNI - Secretariado Nacional de Informação”. Este estatuto reduzia significativamente as obrigações fiscais da empresa, porém viria a ser retirado, ao fim de poucos anos, por a gestão do estabelecimento não corresponder ao nível exigido.

24 de Dezembro de 1971

Em 1994 seria apresentada por Manuel Ferreira Chaves, filho do arquitecto Jorge Chaves, e pelo arquitecto Michel Toussaint a candidatura a “Monumento de Interesse Público”. Depois de dez anos em apreciação na Secretaria de Estado da Cultura, o despacho foi assinado a 25 de Março de 2014. A classificação atribuída, salvaguardou o património da pastelaria, o passarinhário, o mobiliário (cadeiras e mesas) e o bengaleiro do restaurante, no piso de baixo.

Atualmente local de reunião da tertúlia tauromáquica "A Mexicana". Nesta foto de 2013 reunião no piso do restaurante

Em 2015, a pastelaria "Mexicana" propriedade dos herdeiros dos fundadores, é adquirida por Rogério Pereira, proprietário da "Carcassone", pastelaria e cafetaria na Avenida da Igreja, no bairro de Alvalade, em Lisboa. Depois de encerrada, a “Mexicana”, é alvo dum processo de recuperação, seguindo o projecto  de 1962. A fábrica de pastelaria que ainda se mantinha intacta desde 1946, é remodelada e actualizada, na cave é criada uma "Taberna" permitindo aos clientes comer "fora de horas" e no piso térreo apenas se procede a pequenas alterações de fundo, mais visíveis a nível da sala de entrada. A sua reabertura teve lugar em 5 de Dezembro de 2015.

Fernando Medina (Presidente da CML), Rui Nabeiro (“Delta Cafés”) e Rogério Pereira. Na foto da direita Querubim Lapa ao centro com sua mulher Suzana Barros e Rogério Pereira

 

 

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa