6 de dezembro de 2016

Claras Transportes

A empresa “Claras Transportes S.A.R.L.”, com sede no Largo General Baracho, em Torres Novas, teve origem em 1854, quando João Rodrigues Clara iniciou um serviço de trens de aluguer para passageiros entre Torres Novas e a Ponte da Asseca, em ligação ao canal da Azambuja.

Em 1866, ano oficial da fundação da empresa “João Rodrigues Clara”, iniciavam-se as carreiras de trens entre Torres Novas e as estações ferroviárias de Torres Novas e Entroncamento. Em 1912, a firma tomava o nome de “Izidro Rodrigues Clara”, filho do fundador, e introduzia os veículos automóveis, mantendo todavia os antigos trens.

Sede da “João Clara & Cª. (Irmãos), Lda.” no Largo General Baracho, em Torres Novas e provavelmente em 1938

Em 1920, é criada a empresa “João Clara & C.ª (Irmãos), Lda.”, mantendo a sua sede em Torres Novas no Largo General Baracho. A sua filial em Lisboa passaria, em 1942, para uma garagem privativa na Rua Andrade, aos Anjos, e anos mais tarde para a Rua Cidade de Liverpool, também no Bairro dos Anjos.

Autocarro “Ford” da “João Clara & Cª. (Irmãos), Lda.”

                                              1942                                                                                        1955

    

                          Autocarro “REO” de 1937                                                Passeio num autocarro “Borgward”

 

Em 1958, na sua evolução natural funda a “Claras Turismo” que em Lisboa abre a sua loja na Avenida Fontes Pereira de Melo. Viria a ser uma aposta estratégica que se reforçaria com a  compra, no ano de 1961, da empresa de transporte de passageiros Capristanos”, - com origem na firma “Capristano & Ferreira, Lda.” fundada no Bombarral em 1933 - com sede nas Caldas da Rainha, a que se seguiram outras aquisições. Em 1964, junto ás suas instalações em Leiria, constroem a “Estalagem Claras”, na Avenida Heróis de Angola.

Loja da “Claras Turismo”, na Avenida Fontes Pereira de Melo, em Lisboa

Julho de 1963 na revista “Olissipo”

4 de Julho de 1964

1963

No final dos anos 60 do século XX  até 1971, a empresa entra numa fase de expansão e adquire as seguintes empresas de transportes:

“Empresa de Viação de Vila Nova de Oliveirinha, Lda.” de Tábua
“Manuel Martins & Sebastião Martins, Lda.”, de Castelo Branco
”União Automóvel Leiriense, Lda.”, de Leiria
”Francisco Ferreira Vinagre.” de Santarém
“Henriques, Lda.” de Torres Vedras
”Empresa de Transportes Mecânicos Luso-Buçaco, Lda.”, do Luso
”Empresa Marins”, de Castelo Branco

Horários de 1968 e 1970

Em 1971, a empresa “João Clara & C.ª (Irmãos), Lda.”, mudaria a sua designação para “Claras Transportes, S.A.R.L.”. Nesta altura já era a maior empresa de autocarros de transporte de passageiros do país, com mais de 500 autocarros, 439 carreiras e 1.074,4 quilómetros concessionados. Nesta altura, já tinham o terminal da zona Sul em Lisboa na Rua Cidade de Liverpool, transferido, mais tarde para a Avenida Casai Ribeiro, excepto o “Sol Expresso” que fazia parte do “Grupo de Empresas Transportadoras Privadas” que tinha o seu terminal na rua de Entre- Campos (junto à Praça do Campo Pequeno) e, mais tarde, na Avenida Duque de Ávila, 12.

Autocarro “Guy” dos “Claras” e da “Cityrama” na Praça dos Restauradores, em Lisboa

 

Autocarro “AEC UTIC” 740

1971

1972

Em 12 de Junho de 1975, seria, nacionalizada e incorporada na “RN - Rodoviária Nacional, E.P.”. Em 1 de Fevereiro de 1991 transformar-se-ia na “Rodoviária Tejo, S.A.”.

Autocarro “AEC UTIC” U2037

Modelo similar ao do desenho anterior já com a designação de “RN - Rodoviária Nacional”

        

Agradecimentos:
Bilhetes, emblemas, chapas e condecoração publicados neste artigo foram gentilmente cedidos por Carlos Caria.
Horários gentilmente cedidos por Jorge Monteiro via Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

Desenhos digitais publicados, foram gentilmente cedidos por Eugénio Santos, via “
Memórias de Empresas e Autocarros Antigos”.

Bibliografia: Mediotejo.net e Cabo Carvoeiro Memórias

Fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Hemeroteca Digital, Memórias de Empresas e Autocarros Antigos, Fundação Portimagem, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdios Mário Novais)

4 de dezembro de 2016

Cine Oriente

O “Cine Oriente” localizado no Caminho de Baixo da Penha, à Penha de França, em Lisboa, foi inaugurado em 6 de Janeiro de 1931. A sua história começou em 1928, quando António Joaquim Gonçalves, adapta para Cinema um armazém que possuía nessa artéria lisboeta, com base num projecto da responsabilidade do construtor civil João Tomás de Sousa , e cuja obra ficaria concluída em 1930.

Anúncio da inauguração em 6 de Janeiro de 1931

«É quanto ao seu aspecto, um modesto salão, de construção simples mas alegre, comportando cerca de quinhentos lugares, cómodos e espaçosos e todos eles com excelentes condições de visibilidade, incluindo os do balcão. A cabina está apetrechada com uma máquina Pathé, o que garante uma boa projecção. Um quartêto musical, constituído por artistas de comprovado mérito, acompanhará todos os filmes que na sua tela forem apresentados.» in revista "Cinéfilo"

Era um típico cinema de bairro histórico de Lisboa, modesto mas bem construído, suportado por uma estrutura de aço e com o tecto forrado a chapa de ferro. As cadeiras eram de madeira e a sua  lotação era de 496 lugares distribuídos por 132 lugares na Plateia, 168 lugares nos Balcões e 196 lugares na Geral.

Em 1934, o empresário e proprietário do terreno, Alfredo Bernardo Lucas promoveria obras no “Cine Oriente”, que tornariam este espaço mais acolhedor e mais cómodo para o seu novo público. No ano seguinte este cinema passou a ter como arrendatário António Ferrão Lopes, (empresário cinematográfico ligado à produção, distribuição e exibição de filmes), posição que ocupou até 1977, ano em que este espaço, já localizado na «nova» Avenida General Roçadas, desde os anos 50 do século XX, encerrou devido à falta de público.

Bilhete de 12 de Maio de 1966

“Cine Oriente” em foto de 1968

Ainda foi tentado um novo «fôlego» a este espaço com a transformação do “Cine Oriente” e consequente abertura do “Novo Cine”, tentativa que saiu gorada. Mais tarde, o edifício original foi demolido dando lugar a um novo edifício habitacional.

 
Programas gentilmente cedidos por Carlos Caria

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa

29 de novembro de 2016

Antigamente (137)

Carro publicitário do “Cine-Parque” do Funchal, em 1941

Equipa e filmagens da película sobre sementes seleccionadas, em 1953

  

Publicidade no “Mercado 31 de Janeiro” na Avenida Fontes Pereira de Melo em Lisboa, em 1961

Aviões nas “Festas do Senhor de Matosinhos”, em 1970

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Artur Pastor

27 de novembro de 2016

Casa das Tesouras

A “Casa das Tesouras” abriu as suas portas por volta de 1893, na Rua da Escola Politécnica em Lisboa, inicialmente com a designação de “Alfaiate Popular” e propriedade do alfaiate José Clemente. Esta alfaiataria instalou-se num edifício construído, em 1858, em frente da Escola Polythecnica”, criada em 1837 no reinado de D. Maria II.

“Alfaiate Popular” num anúncio em 5 de Novembro de 1893

Entretanto a alfaiataria de José Clemente, “Alfaiate Popular”, em 1896 ampila-se ao ocupar a loja do edifício contíguo com os numeros 53 e 53-A, e muda de designação para “Alfayateria Elegante”.

20 de Outubro de 1896

Conhecido pela “Casa das Onze Portas” este edifício foi destinado a habitação e comércio, num luxo desusado na época, em imóveis de rendimento. O seu projecto é atribuído ao arquitecto francês Pierre Joseph Pézerat, encarregado dos trabalhos de construção da “Escola Polytthecnica”, onde era professor de desenho desde 1853.

Entretanto no início do século XX, José Clemente, muda, mais uma vez, a designação da sua alfaiataria para “Casa das Tesouras”. Este famoso alfaiate de Lisboa, torna-se divulgador dos gabões de Aveiro, abafo para homens e rapazes absolutamente nacional, cómodo, eficaz e elegante, tornando-o acessível a todas as bolsas. O gabão elegante de linhas fradescas de cor preta ou castanha, de capuz, sem cinto, era impermeável e quentinho.

Na foto anterior, pode-se observar na esquina com a Rua Monte Olivete, um  concorrente bem próximo da “Casa das Tesouras”, a “Grande Alfaiateria da Polytechnica”, inaugurada em 5 de Dezembro de 1895.

José Clemente, concitava a curiosidade do público com uma publicidade, que nesse tempo não era comum, e por isso tinha um efeito muito grande, levando o público a estabelecer a moda, de que todos aproveitaram: o José Clemente, os fregueses e os concorrentes que não foram poucos ...

Exemplo de interiores de outras duas alfaiatarias concorrentes

 

A "Casa das Tesouras" não se limitou a fazer só um tipo de publicidade; de vez em quando fazia desfilar pelas ruas da Baixa de Lisboa uma fila extensa de homens de gabão, encapuzados, marchando solenemente a provarem a superioridade do produto das tesouras do sr. Clemente. Acrescente-se a todas estas manifestações de publicidade a dos jornais, também inovadora e deveras curiosa por vezes.

                                        1 de Outubro de 1908                                                  16 de Outubro de 1908

        

                                1 de Dezembro de 1908                                                11 de Dezembro de 1908

                  

                    11 de Dezembro de 1908                                                            13 de Agosto de 1909

     

«Cliente significa freguês. O título foi a primeira grande conquista da cientificação do reclamo. O comprador ou a isso candidato é cliente e todos juntos são a clientela do sapateiro, do carvoeiro, do alfaiate, etc.»

Quanto ás suas convicções políticas José Clemente era um republicano, e em 18 de Novembro de 1910 é publicado no jornal “O Século”, em destaque, um texto assinado por José Clemente, intitulado "Um alvitre a todas as classes que estão em Greve, e para aquelas que, de futuro, pretendam fazer reclamações” e cujo conteúdo passo a transcrever:

1.º - Atendendo a que as Greves nesta ocasião só poderão contribuir para a destruição do nosso ideal, que foi a implantação da República Portuguesa (…), todos deverão retomar o trabalho;
2.º - Nomear-se-á uma comissão de 3 membros de cada Classe, a qual fará as reclamações por escrito a seus patrões;
3.º - Na sendo atendida, reclamar por intermédio da Associação de Classe (…):
4.º - Nunca abandonar o trabalho sem que estejam esgotados os esforços daquelas entidades;
5.º - Não se declarar Greve numa classe sem que outra esteja terminada.”

O nunca esquecendo a publicidade ao seu estabelecimento, o texto termina com um inesperado parágrafo:

«É esta a minha humilde opinião (…) e estou convicto se hoje todos tomarem as suas ocupações, se tornará simpático esse acto e todos aplaudirão os funcionários, indo trabalhar. Ganharão o sustento para os seus e ainda lhes ficará alguma coisa para comprarem os Fatos, Sobretudos da Moda e Gabões de Aveiro da célebre Casa das Tesouras, da Rua da Escola Politécnica (…), que bem precisos estão sendo para a quadra que estamos atravessando.»

Mas a “Casa das Tesouras” não era a única alfaiataria com “Tesouras” no seu nome. Na Rua da Palma tinha-se instalado a alfaiataria “Tesouras de Ouro” que, em 1916, se mudaria para a Rua dos Fanqueiros, conforme anúncio seguinte na “Folha de Lisboa” de 10 de Outubro de 1916.

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Biblioteca Nacional Digital, Ruas de Lisboa com Alguma História